Sete Lagoas reafirma compromisso com igualdade racial na Semana da Consciência Negra

Programação na Câmara Municipal destaca memória, ancestralidade e a urgência de políticas públicas para a promoção da igualdade racial

Publicado em: 24/11/2025

Sete Lagoas reafirma compromisso com igualdade racial na Semana da Consciência Negra

A Semana da Consciência Negra na Câmara Municipal de Sete Lagoas contou com programação marcada por diálogos, celebrações culturais e reflexões profundas sobre ancestralidade, justiça social e políticas públicas. A iniciativa foi do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir),em parceria com a Casa Legislativa.

As atividades foram abertas na segunda-feira (17) com a exposição “O Legado Cultural de Cecília Preta em 20 Fotografias”, instalada na Galeria Stella Figueiredo Chassim Drumond. À noite, o Plenário recebeu uma Reunião Especial em formato de círculo de acolhimento, reunindo lideranças culturais, religiosas, representantes de movimentos negros e a sociedade civil para debater temas como trabalho, arte, segurança, religiosidade, saúde, educação e orçamento público, pilares que estruturam a vivência da população negra.

A abertura da sessão contou com a apresentação do Coral Negras Vozes do Rosário, formado por mulheres que ecoam suas ancestrais por meio do canto, preservando memórias, fé, força e alegria.

Compuseram a mesa o vice-presidente do COMPIR, Marcelo Justino; a presidente da FESCAB (Federação Social de Cultura Afro-brasileira), Makota Nsidandê; e, representando o presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da Câmara, vereador Rodrigo Braga (MDB), o chefe de gabinete Fabiano Santana. A diretora-geral da Câmara, Márcia de Lima, representou o presidente da Casa Legislativa, vereador Ivan Luiz (PDT).

Ancestralidade, presença e resistência

A programação deste ano girou em torno do tema “Tradições e Trajetórias: Um Olhar Ancestral”, reforçando a importância da memória, da identidade e da resistência do povo negro na construção de uma sociedade mais plural e justa.

Para o vice-presidente do Compir, Marcelo Justino, ocupar a Câmara com temas raciais é um gesto de reparação e pertencimento. “Ceder esse espaço para lutarmos pela pauta racial e pela Consciência Negra, trazendo as populações de matriz africana e os movimentos negros para um espaço que é público e que precisa de políticas voltadas para essa população, é extremamente importante”, afirmou.

A diretora-geral da Câmara, Márcia de Lima, reforçou que a agenda racial deve ser permanente: “Não deveríamos falar sobre igualdade só em uma semana. É um tema vivido todos os dias. Precisamos trabalhar equidade e políticas públicas durante todo o ano”, declarou.

A presidente da Fescab, Makota Nsidandê, destacou a importância da ocupação dos espaços institucionais pela população negra: “Este espaço é nosso. Temos o direito de estar aqui, opinando, ocupando cadeiras e compreendendo que fazemos parte deste lugar. A Consciência Negra não pode se limitar a uma data. Que esta semana seja o início de muitos anos de reparação histórica”, ressaltou.

Reflexão sobre orçamento e desigualdade

Um dos momentos de destaque da noite foi a palestra do auditor e ouvidor da Câmara, Wagner Marques, com o tema “O Negro no Orçamento”. Especialista em contabilidade pública, ele compartilhou sua pesquisa sobre os impactos do orçamento na emancipação econômica da população negra. Especialista em contabilidade pública e controle interno, ele tem uma trajetória relevante e inspiradora com mais de 12 anos na administração pública, participação no Compir e uma pesquisa acadêmica sobre s impactos do orçamento público na emancipação econômica da população negra de nossa cidade.

Em sua fala, evidenciou a profundidade histórica das desigualdades: Um dia, já adulto, eu descobri duas coisas que mudou a minha forma de ver o mundo: a primeira é que grande parte da espiritualidade brasileira, tem raiz negra. Um exemplo, a fé evangélica pentecostal e a umbanda. A segunda coisa é que grande parte do sofrimento brasileiro, também tem essa raiz, a raiz negra. A diferença é que quando a raiz é da fé, a gente celebra, e quando a raiz é da desigualdade, a gente esconde. Foi aí que eu entendi a profundidade do que acontece. Quando a raiz é espiritual ela aparece em festas, nas músicas, nos rituais, mas quando a raiz é racista, ela se esconde”, alertou o palestrante.

A reunião foi encerrada com uma apresentação da bailarina Valéria Olímpio, que trouxe à cena a dança como linguagem de resistência, beleza e ancestralidade.

Chamado por políticas públicas permanentes

Ao final, Marcelo Justino reforçou a necessidade de estrutura e continuidade para as políticas de igualdade racial: “É preciso que o poder público apoie as pautas, fortaleça o COMPIR e crie políticas efetivas, não apenas ações concentradas na Semana da Consciência Negra. As demandas são contínuas, e vivenciamos casos de racismo durante todo o ano. Precisamos de políticas permanentes.”

Consciência que se vive todos os dias

A Semana da Consciência Negra integra o calendário nacional e culmina no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência à escravidão no Brasil. Mais que uma celebração, o período é um convite à reflexão, à educação e ao enfrentamento do racismo estrutural, reafirmando a contribuição do povo negro para o país e a urgência de avanços em direitos, cultura e justiça social.